sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Luiz Fernando

Um sorriso para uma resposta...
Uma pausa para pensar...
Uma resposta que como espada dilacera a alma
e faz pensar...
Antítese manifestada na ausência do rancor.
Amigo que a eternidade só fará aproximar
para desnudar que nada é por acaso:
o Eterno governa nossas vidas.










sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Pensando um pouco

Nada será tão importante que apague a importância do hoje, pois o amanhã nada mais é do um vaso feito com fragmentos do presente e preenchido pela essência do passado. André Siqueira. 13/12/2013.


Quem não tem caça vai com jaca mesmo

Finalmente recebi a espingarda soca-soca tão sonhada, Foram muitos meses pedindo ao meu pai, até que ele querendo se livrar do insistente filho comprou por 300 cruzeiros a esperada espingarda.
Passaram-se alguns dias até que finalmente consegui manusear perfeitamente minha companheira. Estava pronto para caçar.
Acordei bem cedinho e sai de casa com a "companheira", um pão com manteiga e a munição. O lanche eu comi logo que a fome apareceu,  a  munição foi toda desperdiçada  e a caça tão esperada até hoje eu estou procurando. A única coisa que eu trouxe da caçada foi uma jaca que se tornou motivo de piada para toda minha família.






domingo, 24 de novembro de 2013

O GOL MAIS BONITO

É impossível esquecer o gol mais bonito que fiz, acho que qualquer pessoa que já jogou futebol lembra do seu gol mais bonito. Alguns terão uma certa dificuldade para escolher por terem sido tantos, mas os meus foram poucos e por isso não terei tanta dificuldade, apesar  disso não diminuir em nada a beleza desse gol.
Foi no colégio Salesiano Dom Bosco, acho que estava na 5a série e o jogo foi em um campo de ótima qualidade que lá havia. Saí da área da minha defesa e driblei metade do time adversário e na hora do gol chutei um pouco desequilibado, mas fiz um lindo gol. O zagueiro do outro time me ameaçou e disse que se tentasse outra vez levaria "porrada". Realmente isso aconteceu no segundo tempo quando alguém me derrubou na entrada da área e desmaiei e só acordei no banheiro do vestiário. Foi uma grande dor em meio a uma grande conquista. Descobri naquele dia que as grande realizaçoes da vida se desenrolam em meio a grandes dificuldades.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O canguru do meu avô

No início dos anos 1970 fomos passar o carnaval em uma praia distante: Maria Farinha,no litoral norte de Pernambuco. Era linda e com muitas casinhas de pescadores na beira da praia. Quem a conhece hoje não pode acreditar que era assim.
Meu avô era um sujeito muito elegante, era um intelectual de poucas palavras, um riso curto e um humor fino. Lembro sempre de um comentário feito por ele nessa casa de praia que durante muitos anos achei que era pura verdade.
Observei próximo a casa um enorme buraco de rato e corri para contar para meu avô. Ele foi ver o buraco e disse: Isso não é um buraco de rato, mas de canguru. Cresci achando que em Maria Farinha havia cangurus.


"Nâo cutuque o cão com vara curta"

Minha mãe sempre dizia: meu filho não cutuque o cão com vara curta. Eu só fui aprender quando já tinha uns sete anos de idade.
Minha casa ficava em um dos caminhos que dava na feira do Cordeiro e por lá passavam muitas pessoas simples que comercializavam ali ou carregavam fretes. Todo início de noite , geralmente da sexta-feira para o sábado, as pessoas passavam.Em um desses dias um menino que trazia em uma das mãos um balaio e na outra uma rudia me ensinou a grande lição.                                                                                   
 Naquela noite fiquei na frente do menino, acho que um pouco mais velho que eu, e disse: bota o balaio no chão que você vai apanhar. ( Não me perguntem por que fiz isso. Até hoje não sei.) . O menino se recusou e disse que não poderia parar pois teria que ir à feira para ajudar sua mãe que encontrava-se em casa esperando uns trocados. Fiquei um pouco sensível com a história, mas voltei atrás e disse: tire o balaio. Ele tirou e eu levei uma grande surra e pude ver do chão, com a poeira levantando, o menino indo embora. Parecia uma cena de faroeste com o moçinho desaparecendo em meio á poeira e o fora da lei no chão. Aprendi a lição.




quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Uma noite com papai

Um dos dias inesquecíveis da minha infância foi quando fiquei uma madrugada acordado com meu pai, enquanto todos dormiam, produzindo as bandeirinhas da festa de São João que decoraria a minha casa como se fosse um arraial pra dançar quadrilha junina. Ajudar meu pai cortando as bandeirinhas e colocando grude de goma nas bordas se tornou inesquecível pra mim. Acho que papai nem lembra deste dia, mas para mim se tornou memorável. Lembro-me ainda os detalhes de cada objeto daquele quarto azul.
Azul é a cor predominante na colcha de retalhos da minha infância,que ainda contêm o branco do sorriso de um pai sempre presente na vida do filho.


domingo, 18 de agosto de 2013

PRIMEIRA GRANDE TRELA

Próximo à casa onde eu morava havia um espécie de lagoa ou laguna, acho que possuia alguma ligação com o mar. Eu costumava ir com alguns colegas da vizinhança tentar pegar alguns peixes com as mãos. Tenho vagas lembranças desse local, acho que tinha agora uns seis anos de idade.
Em um dos regressos desse lugar aconteceu um fato que merece ser lembrado. Não gosto muito de contá-lo para meus filhos.
Vamos lá.Enquanto retornava com os colegas passamos próximo a um poste de fios elétricos, naquele tempo os postes eram de madeira, e então, não sei o que me deu, perguntei aos meninos se eles duvidavam que eu sereia capaz de derrubar o poste, eles duvidaram.Não tive dúvidas, imitando o Kung Fu saltei no poste e derrubei. Os fios bateram uns nos outros e o resto foi "pernas para que te quero".Cheguei em casa e encontrei minha mãe reclamando da falta de energia  e perguntando por que eu estava tão desconfiado. Poucos minutos depois ela ficou sabendo quando seu Antônio, o eletricista do bairro veio reclamar e revelar o causador do apagão. Vale ressalvar que naquele tempo queda de energia não era chamada assim.




sábado, 17 de agosto de 2013

MEU NOME

Meu nome seria Elói.
Mudou um pouco antes de eu nascer.
Minha mâe estava desesperada com as dores de parto que só aumentavam e fez um trato com Deus: " Se meu filho nascer será chamado de André, um dos discípulos de Cristo". Não foi fácil tiveram que chamar meu tio, um médico do exército, em plena ditadura, pois eu não queria sair. Quando nasci era roxo e segundo meu pai parecia um sapo.




sexta-feira, 16 de agosto de 2013

MEMÓRIAS




 Escreverei, a partir de hoje, todos os dias sobre uma pequena parte da minha vida. Em alguns casos procurarei o anonimato de algumas pessoas para preservar suas respectivas imagens. Muitos alunos sempre me pediram para contar minhas histórias em um livro, como não tenho coragem de escrever um livro estarei aqui contando de forma descontraída alguns episódios da minha vida a quem interessar.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

ENQUANTO A CIDADE DORME

Faço um pacto com o silêncio
enquanto a cidade sonha
com dias melhores,
com um melhor amante que a seduza.

Mergulho nos seus sonhos
como um menino cheio de esperança:
descubro na calma
os traços tatuados de uma personalidade

confusa, multiplicando sabores
e dissabores: os dias e as noites
mergulhados em fúria e ócio,
frenesi e repouso.

Despindo-me da agonia
sou envolvido pela afonia
da noite que me arranca
a ilusão, enquanto a cidade dorme.
 

sábado, 9 de fevereiro de 2013

TRANÇAS E TRANCAS

Tranças, trançadas, trancadas
que fecham do despertar de um amor.
Tranças douradas, onde me tranco,
me agarro, subo... nos sonhos de Rapunzel.

Tranças de mel, que escorregam
entre dedos, entre medos,
entre desejos meus.

Tranças, amarras, laços de amor,
prisão, claustro, paixão,
escadas de sonhos,
degraus de ilusão.

* Este poema foi feito na minha adolescência.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

CORRO

Indo vou aonde
sem saber
os versos
não saem
sabem eles
eu também
desisto fácil
vivo fácil
não agrado
só escrevo
por que
não sei
caminho
corro
desisto
morro
desboto
renovo
e volto
vou indo
aonde
o poema deixar.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

FUGA

Fujo da vida
como monges
em mosteiros
tentando dominar
os sonhos e desejos.
Amargo o tic-tac
dos relógios
que me faz
correr como as horas.
A penitência
é saber do amanhã
o hoje não seduz.
Castigo o corpo
com varas
que varam
o arrependimento
de não ter
feito o possível.
Impossível esquecer
que sou pó
e que a terra
de onde sai
me chama.
A clausura
alimenta o altar
com o óleo
das lágrimas
que correm tépidas:
rios intermitentes.
As paredes
são limites
que inibem
a esperança;
a luz das frestas
não diz nada.
Só ouço gritos:
mulheres, crianças,
arrancadas das mães:
são tantos
que não escuto
os que são meus.
A vida não
é capaz de
calar a dor.
- Derrubem o mosteiro
para ver 
se ao menos
castigado pelo tempo
eu fuja
e fugindo
perceba
o que já
não posso ver.


 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

SINA DE UM RIO

Quando a terra seca bebe água
no sertão do Velho Chico
a terra se sente amada
entrega-se: O pleno cio.

A terra mulher mal amada
contendo-se em satisfazer
abre em submissão sua fendas
para água das nuvens receber.

Em sua pele raízes secas
que levam água a folhas que aparecem
em um abril de águas furtadas
de uma seca verde que cedo perece.

A Terra olhando de cima
o rio que insiste em correr
lembra que é sempre sua sina:
nascer e morrer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

TRÊS MOMENTOS

Quero ser acariciado
pelos ventos da minha infância,
banhado pelos chuvas do mês de junho
enquanto sonhava com as férias escolares.
Quero sentir as mãos de minha mãe
mais um vez puxando meus cabelos
(naquele tempo eles eram volumosos)
trazendo-me de volta para casa:
era a hora do banho.


Quero mais uma vez ser queimado pelo sol
que brilha na praia de Boa Viagem
e mergulhar naquelas águas mornas,
sentir o corpo que me envolvia
enquanto dançávamos no embalo das ondas.


Quero de novo sentir que o frio polar
não é capaz de me atingir
porque os sonhos da juventude
são os melhores agasalhos contra o desânimo.



 

 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ELA , A LUA E EU

Andamos pela rua
pela praça de São Pedro
dançamos pra noite,
cantamos pra ela.

Ela a Lua e Eu.

Na segunda ela nascia...
na terça apareceu
na quarta ela cresceu
na quinta minguava
na sexta desapareceu...

Nos outros dias:
eu...eu...eu...

domingo, 27 de janeiro de 2013

CICA


 

      Não sei exatamente em que momento passei a amá-lo, até hoje não consigo entender por que o amo. A única coisa que sei é que não perco um só dos seus discursos. Durante trinta anos tive o final de tarde como sagrado.Fui seguida inúmeras vezes a mando do meu marido, com quem estou casada há trinta e um anos. Apesar de saber, nunca tocou no assunto comigo, talvez por que ele não se sinta ameaçado.Talvez porque não acredite na minha fixação.

        Um ano antes de conhecer o Emanuel, que hoje é meu marido, conheci na subida da Ponte Duarte Coelho o homem que com seus discursos mudaria minha vida e me tornaria uma ativa representante dos problemas políticos da minha cidade.Eu vinha descendo a Ponte Duarte Coelho no sentido Rua da Aurora quando vi de longe um homem em pé sobre os canteiros de plantas que separavam o rio da rua; ouvi primeiro sua voz que clamava a participação das massas, citando Marx e Engels, de vez enquanto citava Proudhon e Hegel. Nunca tinha visto um misto tão volumoso de saber e simplicidade. Apesar disso, era difícil alguém parar para escutá-lo. Era um sujeito magro, alto, de rosto afilado, cabelo curto, nariz cumprido. Vestia-se muito mal, uma camisa tergal, transparente de tanto que fora usada, a calça já estava coronha e uma bota rota completava seu traje.Era muito diferente dos que representavam o povo nas tribunas da cidade. Era singelo, o olhar manso, tranquilo ao fitar os olhos dos ouvintes ou a paisagem quando ninguém parava para escutá-lo.

      Cica, como era conhecido, era capaz de despertar paixão a primeira vista, foi exatamente o que aconteceu comigo. Logo depois de conhecê-lo pensei em abandonar tudo, deixar os estudos, não casar, entregar-me por inteira àquele homem a quem meu espírito estaria rendido durante toda vida.

      A princípio tentei aproximar-me dele numa tarde de dezembro, em quanto o sol deixava a cidade.Vestida de modo simples ajeitei os  meus cabelos, que naquela época ainda eram negros, lisos e sedosos sobre os ombros, que caiam sobre a minha pele branca que reluzia junto com os meus olhos no final de tarde. Apesar dos meus um metro e setenta me senti pequena diante da imensidão daquelas palavras avassaladoras. Pensei em seduzi-lo, mas não conseguiria, seus olhos eram puros, voltados apenas para as questões sociais, não me via como mulher, mas como parte da massa precisando de libertação das forças opressoras.

      Aplaudi veementemente o final do discurso, chegando-me apressadamente a ele.

      Após os discursos, ele prendia o caderno numa das axilas e saía. Naquele dia, ainda não sabia onde ele morava.

- Licença - Olhou-me com os olhos mais enigmáticos que já vi. - Como é seu nome? - perguntei-lhe, tentando fixar-me nos seus olhos - gostaria de elogiar o seu discurso, muito bom! – enquanto eu falava saiu numa tranqüilidade inquietante, como quem fica mudo em um passe de mágica.De fato nunca o ouvi falar em trinta anos.Os seus olhos diziam que me amavam, mas nunca consegui dizer-lhe que o amava.

Naquela tarde segui seus passos para conhecer um pouco mais daquela figura para quem guardaria todos os sentimentos escondidos em mim. O melhor guardado em mim seria só dele, jamais meu marido recebeu desse amor.

Naquela tarde descobri que Cica morava, nos fundos da casa do pai, era filho único, mas o pai desistira dos cuidados com ele fazia algum tempo, o quarto era pequeno, mas a sensação era de que era menos ainda devido à quantidade de livros e papeis que ali estavam apesar de estarem todos bem organizados. Quando criança, sempre se destacara diante das demais crianças de sua idade, era uma criança exemplar apesar de isolar-se dos demais, não tinha amigos - contou-me seu pai naquela tarde, e em outras em que estive ali para saber mais desse homem - Aos 15 anos sua mãe faleceu, a perda da mãe deixou-o totalmente perdido no mundo. A mãe era o seu refúgio, o pai boêmio jamais lhe dera atenção. A partir de então passou a perambular pelas ruas, sem ponto fixo, tendo diversas vezes dado entrada no manicômio. Passado algum tempo voltava para as ruas, Cica nunca fora violento, talvez fosse este traço da sua personalidade que mais me chamava atenção, não era ameaça para a sociedade, embora suas palavras fossem; contassem e denunciassem a opressão secular sofrida pela população os demandes da política pernambucana, jamais sofrera qualquer tipo de perseguição e os motivos são óbvios. Mesmo quando prestes tentou chegar ao poder, não sofreu qualquer ameaça.Seus discursos exaltavam o “Cavaleiro da Esperança”. Pregava a revolução proletária como a única saída.

Como já disse antes ele tornou-se para mim uma obsessão, jamais entendi.Nesses trinta anos enriqueci os meus discursos nos discursos dele, copiei fidedignamente suas propostas,senti-me muitas vezes leviana, desleal. Mas consolava-me o fato de ter-me tornado uma interprete, de um mundo ignorado.

Algumas vezes cheguei a desejá-lo. Sonhei em trinta anos de convivência com noites cálidas em meio a revoluções, fazendo parte da Coluna Prestes, em aguaceiros intensos, as roupas coladas à pele, o calor do seu corpo no meu.Acordei muitas vezes em gritos mudos de prazer, completamente ensopada de suor, sentada em seu colo, minhas pernas em volta das suas costas, como num galope, prendida ao corpo de um cavalo.Por vezes senti-me a pior das mulheres, fazendo o meu marido de substituto; naquelas horas Emanuel sentia-se amado.Era um prazer desesperado, pela respiração incontrolável, ofegante; pelo banho completo de língua que dava nele, o gozo não deixava dúvidas, eu o amava. Cheguei a pensar em dupla personalidade, em loucura, talvez de tanto admirar e seguir Cica, acabaria como ele. O silêncio de Cica atormentava-me. Jamais conversamos, ele só monologava, ouvia-se sua voz grave nos discursos na ponte.

 

 

Cica partiu após um discurso inflamado pedindo apoio para as ligas camponesas.Morreu em abril de 1964, durante o golpe militar. Eu me encontrava lá naquele fatídico dia,escutava-o, nunca perdi a admiração por ele, amava-o cada vez mais , apesar de tratar-se de um amor impossível, uma fantasia, amava. Foi terrível. Uma parte de mim ficou ali naquela ponte, ainda hoje consigo escutá-lo quando passo por lá. Caiu, Cica caiu, sua cabeça foi ao chão, um ataque cardíaco fulminante, que levaria de vez todos os segredos que estavam incrustados naquele coração; e a sua cabeça ao chão não conseguiu diluir toda inteligência e segredos ocultos que explicariam os segredos de Cica. Ele se foi, tomei-o em meus braços. Levei-o para casa, chorei...chorei. Providenciei um velório digno para ele, só eu estive presente naquele dia, foi rápido, meu marido nem se quer desconfiou. No caixão uma coroa de flores que mandei preparar com a inscrição: “ao maior orador da história de Pernambuco”.

Um dia após a sua morte resolvi abandonar a política, decidi passar um tempo coletando tudo que pudesse sobre o pensamento de Cica. Pesquisei tudo que se encontrava em seus cadernos de anotações: quarenta e três ao todo.De tanto vasculhar as sua coisas acabei encontrando seu registro de nascimento. Chamava-se: Marivaldo dos Santos Oliveira. O livro que escrevi apareceu como se escrito por ele, meu nome jamais vazou.Cica ficou conhecido como o autor de uma única obra.

Esse foi meu pagamento por tudo que sou e que tenho hoje aos quarenta e oito anos. O dinheiro arrecadado nas vendas dos livros doei a uma instituição que cuida de pessoas com problemas mentais.

Cica é hoje uma lembrança que guardo com muito carinho em meu peito.    

     

 

 

 

                                                                                            

 

 

 

 

sábado, 26 de janeiro de 2013

OCULTO

Quero tirar do meu peito

o que está escondido

deitado em berço não tão esplêndido

espremido pelas lembranças

de um passado não tão distante.

 

Quero que ele grite

e diga o que eu não penso dizer

fale o que é pra falar

diga o que eu não posso expressar

que o tempo não quis apagar.

ÍNDIOS


 

                         Índios infinitamente índios

                         Dono sem terras

                         Caçador sem caça

                         Pescador sem pesca

                        

                         Índios discriminadamente índios

                         Proibidos de lutar

                         Obrigados a aceitar

                         Prontos a abandonar

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

MANTOS VERDES

O horizonte em Itamaracá
desfile de jangadas coloridas
no mar que muda de cor
à medida que o sol expõe
seu manto de luz na água Morna.

Longe do horizonte, lavando
areias, o mar beija coqueiros
em manto branco - Signo eterno
dos tempos em que singravam os negreiros.

Os ventos alísios, no mar que tira
da pedra a canção, sacode
um manto verde-pálido
de bordados brancos, que absorvido
pela areia, canta enquanto explode.

Coberta por mantos estendidos
está a terra onde canta a pedra insistente
(O manto verde das matas, o manto
verde do mar) que continua recebendo
águas turvas vindas do continente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

CORTINA DE VIDRO

Uma cortina de vidro
jogada ao chão:
cacos agudos como
desejos ocultos
guardados, disfarçados.
Mentiras são contestadas,
as formas negadas,
os conflitos repartidos
em reflexos.
Espasmos voluntários
obstruindo o natural
que partem de impulsos
voláteis, perdidos,
enquanto descobrem-se
descortinam-se diante
da cor de olhos
imigrantes, insensíveis,
incapazes de ajuntar,
de calar.
Do vidro se fez o espelho
mostrando o inconcebível:
agora patente.

 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O SOL, A VARANDA E EU

Todo ano é assim:
o sol novamente descortina
a minha varanda.
Assim acontece todos os anos
o sol, a varanda e eu.

O sol parece mais novo, brilha mais.
A varanda  parece que não envelhece.
E só em mim ficaram as marcas deixadas pelo tempo.

À FLOR DA PELE


Castrei a minha alma
por causa de um amor
que me nega, me renega
a um segundo...terceiro...
décimo...distante plano.

Desisti de desvendar labirintos,
invejei com gana
o desejo de Teseu.
Que amor é o meu?
Inacessível como estrelas
anos, ano-luz distante.

Tão perto e tão longe:
perto da derme
longe do coração.

Tornei-me um gladiador
todos os dias
tentando desfazer suas defesas
quebrar suas armaduras.

Quando a balança
pesa pro meu lado
quebro a cara.

Aonde está o cupido
que não te envenena?

Stop, pare, no más.
Ame-me ou renegue-me
mas não diga: não sei.

*Este desabafo foi escrito há alguns anos atrás.
       
                                                                                                
 
 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DISFARCE

À Ana Claudia Dias

A alegria tomou silêncio
a timidez vestiu-se de desinibição:
pequena caixa de segredos,
onde, oculta-se o medo.

Como na água do mar
a superfície transparente
oculta milhas e milhas
impenetráveis de solidão.

Segredos, lapsos de memória
fazendo aparecer
o disfarce do sorriso,
a palavra. Signos.

A menina torna-se mulher
em versos escondidos,
brancos como seus segredos,
livres como seus medos.
 

DESCONEXO

Sinto que as horas
não andam a passos lentos:
- São duas horas.
Os ponteiros do relógio apontam.
Mergulho velozmente em confusões mentais
repartidas, repelidas, novas.
O coração bate rapidamente
enquanto o resto do corpo enfadado pede trégua.
Frêmitos velozes atordoam-me por inteiro.
No relógio do meu corpo
os ponteiros mal saem do lugar.
Minutos sentidos em desconexo
ao mundo a minha volta.
As vezes escuto um bem um bem-te-vi ao longe:
percebo que meu relógio não segue
o movimento rotacional da Terra,
o outro preso ao meu pulso
marca: cinco horas.

Quarentena

Enquanto quantos dias enfrento e a vida segue cantando o encanto de que é preciso viver pra ver um dia melhor nascer. Meninos q...