domingo, 27 de janeiro de 2013

CICA


 

      Não sei exatamente em que momento passei a amá-lo, até hoje não consigo entender por que o amo. A única coisa que sei é que não perco um só dos seus discursos. Durante trinta anos tive o final de tarde como sagrado.Fui seguida inúmeras vezes a mando do meu marido, com quem estou casada há trinta e um anos. Apesar de saber, nunca tocou no assunto comigo, talvez por que ele não se sinta ameaçado.Talvez porque não acredite na minha fixação.

        Um ano antes de conhecer o Emanuel, que hoje é meu marido, conheci na subida da Ponte Duarte Coelho o homem que com seus discursos mudaria minha vida e me tornaria uma ativa representante dos problemas políticos da minha cidade.Eu vinha descendo a Ponte Duarte Coelho no sentido Rua da Aurora quando vi de longe um homem em pé sobre os canteiros de plantas que separavam o rio da rua; ouvi primeiro sua voz que clamava a participação das massas, citando Marx e Engels, de vez enquanto citava Proudhon e Hegel. Nunca tinha visto um misto tão volumoso de saber e simplicidade. Apesar disso, era difícil alguém parar para escutá-lo. Era um sujeito magro, alto, de rosto afilado, cabelo curto, nariz cumprido. Vestia-se muito mal, uma camisa tergal, transparente de tanto que fora usada, a calça já estava coronha e uma bota rota completava seu traje.Era muito diferente dos que representavam o povo nas tribunas da cidade. Era singelo, o olhar manso, tranquilo ao fitar os olhos dos ouvintes ou a paisagem quando ninguém parava para escutá-lo.

      Cica, como era conhecido, era capaz de despertar paixão a primeira vista, foi exatamente o que aconteceu comigo. Logo depois de conhecê-lo pensei em abandonar tudo, deixar os estudos, não casar, entregar-me por inteira àquele homem a quem meu espírito estaria rendido durante toda vida.

      A princípio tentei aproximar-me dele numa tarde de dezembro, em quanto o sol deixava a cidade.Vestida de modo simples ajeitei os  meus cabelos, que naquela época ainda eram negros, lisos e sedosos sobre os ombros, que caiam sobre a minha pele branca que reluzia junto com os meus olhos no final de tarde. Apesar dos meus um metro e setenta me senti pequena diante da imensidão daquelas palavras avassaladoras. Pensei em seduzi-lo, mas não conseguiria, seus olhos eram puros, voltados apenas para as questões sociais, não me via como mulher, mas como parte da massa precisando de libertação das forças opressoras.

      Aplaudi veementemente o final do discurso, chegando-me apressadamente a ele.

      Após os discursos, ele prendia o caderno numa das axilas e saía. Naquele dia, ainda não sabia onde ele morava.

- Licença - Olhou-me com os olhos mais enigmáticos que já vi. - Como é seu nome? - perguntei-lhe, tentando fixar-me nos seus olhos - gostaria de elogiar o seu discurso, muito bom! – enquanto eu falava saiu numa tranqüilidade inquietante, como quem fica mudo em um passe de mágica.De fato nunca o ouvi falar em trinta anos.Os seus olhos diziam que me amavam, mas nunca consegui dizer-lhe que o amava.

Naquela tarde segui seus passos para conhecer um pouco mais daquela figura para quem guardaria todos os sentimentos escondidos em mim. O melhor guardado em mim seria só dele, jamais meu marido recebeu desse amor.

Naquela tarde descobri que Cica morava, nos fundos da casa do pai, era filho único, mas o pai desistira dos cuidados com ele fazia algum tempo, o quarto era pequeno, mas a sensação era de que era menos ainda devido à quantidade de livros e papeis que ali estavam apesar de estarem todos bem organizados. Quando criança, sempre se destacara diante das demais crianças de sua idade, era uma criança exemplar apesar de isolar-se dos demais, não tinha amigos - contou-me seu pai naquela tarde, e em outras em que estive ali para saber mais desse homem - Aos 15 anos sua mãe faleceu, a perda da mãe deixou-o totalmente perdido no mundo. A mãe era o seu refúgio, o pai boêmio jamais lhe dera atenção. A partir de então passou a perambular pelas ruas, sem ponto fixo, tendo diversas vezes dado entrada no manicômio. Passado algum tempo voltava para as ruas, Cica nunca fora violento, talvez fosse este traço da sua personalidade que mais me chamava atenção, não era ameaça para a sociedade, embora suas palavras fossem; contassem e denunciassem a opressão secular sofrida pela população os demandes da política pernambucana, jamais sofrera qualquer tipo de perseguição e os motivos são óbvios. Mesmo quando prestes tentou chegar ao poder, não sofreu qualquer ameaça.Seus discursos exaltavam o “Cavaleiro da Esperança”. Pregava a revolução proletária como a única saída.

Como já disse antes ele tornou-se para mim uma obsessão, jamais entendi.Nesses trinta anos enriqueci os meus discursos nos discursos dele, copiei fidedignamente suas propostas,senti-me muitas vezes leviana, desleal. Mas consolava-me o fato de ter-me tornado uma interprete, de um mundo ignorado.

Algumas vezes cheguei a desejá-lo. Sonhei em trinta anos de convivência com noites cálidas em meio a revoluções, fazendo parte da Coluna Prestes, em aguaceiros intensos, as roupas coladas à pele, o calor do seu corpo no meu.Acordei muitas vezes em gritos mudos de prazer, completamente ensopada de suor, sentada em seu colo, minhas pernas em volta das suas costas, como num galope, prendida ao corpo de um cavalo.Por vezes senti-me a pior das mulheres, fazendo o meu marido de substituto; naquelas horas Emanuel sentia-se amado.Era um prazer desesperado, pela respiração incontrolável, ofegante; pelo banho completo de língua que dava nele, o gozo não deixava dúvidas, eu o amava. Cheguei a pensar em dupla personalidade, em loucura, talvez de tanto admirar e seguir Cica, acabaria como ele. O silêncio de Cica atormentava-me. Jamais conversamos, ele só monologava, ouvia-se sua voz grave nos discursos na ponte.

 

 

Cica partiu após um discurso inflamado pedindo apoio para as ligas camponesas.Morreu em abril de 1964, durante o golpe militar. Eu me encontrava lá naquele fatídico dia,escutava-o, nunca perdi a admiração por ele, amava-o cada vez mais , apesar de tratar-se de um amor impossível, uma fantasia, amava. Foi terrível. Uma parte de mim ficou ali naquela ponte, ainda hoje consigo escutá-lo quando passo por lá. Caiu, Cica caiu, sua cabeça foi ao chão, um ataque cardíaco fulminante, que levaria de vez todos os segredos que estavam incrustados naquele coração; e a sua cabeça ao chão não conseguiu diluir toda inteligência e segredos ocultos que explicariam os segredos de Cica. Ele se foi, tomei-o em meus braços. Levei-o para casa, chorei...chorei. Providenciei um velório digno para ele, só eu estive presente naquele dia, foi rápido, meu marido nem se quer desconfiou. No caixão uma coroa de flores que mandei preparar com a inscrição: “ao maior orador da história de Pernambuco”.

Um dia após a sua morte resolvi abandonar a política, decidi passar um tempo coletando tudo que pudesse sobre o pensamento de Cica. Pesquisei tudo que se encontrava em seus cadernos de anotações: quarenta e três ao todo.De tanto vasculhar as sua coisas acabei encontrando seu registro de nascimento. Chamava-se: Marivaldo dos Santos Oliveira. O livro que escrevi apareceu como se escrito por ele, meu nome jamais vazou.Cica ficou conhecido como o autor de uma única obra.

Esse foi meu pagamento por tudo que sou e que tenho hoje aos quarenta e oito anos. O dinheiro arrecadado nas vendas dos livros doei a uma instituição que cuida de pessoas com problemas mentais.

Cica é hoje uma lembrança que guardo com muito carinho em meu peito.    

     

 

 

 

                                                                                            

 

 

 

 

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