Não sei
exatamente em que momento passei a amá-lo, até hoje não consigo entender por
que o amo. A única coisa que sei é que não perco um só dos seus discursos. Durante
trinta anos tive o final de tarde como sagrado.Fui seguida inúmeras vezes a
mando do meu marido, com quem estou casada há trinta e um anos. Apesar de
saber, nunca tocou no assunto comigo, talvez por que ele não se sinta
ameaçado.Talvez porque não acredite na minha fixação.
Um ano antes de conhecer o Emanuel, que
hoje é meu marido, conheci na subida da Ponte Duarte Coelho o homem que com
seus discursos mudaria minha vida e me tornaria uma ativa representante dos
problemas políticos da minha cidade.Eu vinha descendo a Ponte Duarte Coelho no
sentido Rua da Aurora quando vi de longe um homem em pé sobre os canteiros de
plantas que separavam o rio da rua; ouvi primeiro sua voz que clamava a
participação das massas, citando Marx e Engels, de vez enquanto citava Proudhon
e Hegel. Nunca tinha visto um misto tão volumoso de saber e simplicidade. Apesar
disso, era difícil alguém parar para escutá-lo. Era um sujeito magro, alto, de
rosto afilado, cabelo curto, nariz cumprido. Vestia-se muito mal, uma camisa
tergal, transparente de tanto que fora usada, a calça já estava coronha e uma
bota rota completava seu traje.Era muito diferente dos que representavam o povo
nas tribunas da cidade. Era singelo, o olhar manso, tranquilo ao fitar os olhos
dos ouvintes ou a paisagem quando ninguém parava para escutá-lo.
Cica, como era conhecido, era capaz de
despertar paixão a primeira vista, foi exatamente o que aconteceu comigo. Logo
depois de conhecê-lo pensei em abandonar tudo, deixar os estudos, não casar,
entregar-me por inteira àquele homem a quem meu espírito estaria rendido
durante toda vida.
A
princípio tentei aproximar-me dele numa tarde de dezembro, em quanto o sol
deixava a cidade.Vestida de modo simples ajeitei os meus cabelos, que naquela época ainda eram
negros, lisos e sedosos sobre os ombros, que caiam sobre a minha pele branca
que reluzia junto com os meus olhos no final de tarde. Apesar dos meus um metro
e setenta me senti pequena diante da imensidão daquelas palavras avassaladoras.
Pensei em seduzi-lo, mas não conseguiria, seus olhos eram puros, voltados
apenas para as questões sociais, não me via como mulher, mas como parte da
massa precisando de libertação das forças opressoras.
Aplaudi
veementemente o final do discurso, chegando-me apressadamente a ele.
Após os
discursos, ele prendia o caderno numa das axilas e saía. Naquele dia, ainda não
sabia onde ele morava.
-
Licença - Olhou-me com os olhos mais enigmáticos que já vi. - Como é seu nome?
- perguntei-lhe, tentando fixar-me nos seus olhos - gostaria de elogiar o seu
discurso, muito bom! – enquanto eu falava saiu numa tranqüilidade inquietante,
como quem fica mudo em um passe de mágica.De fato nunca o ouvi falar em trinta
anos.Os seus olhos diziam que me amavam, mas nunca consegui dizer-lhe que o
amava.
Naquela
tarde segui seus passos para conhecer um pouco mais daquela figura para quem
guardaria todos os sentimentos escondidos em mim. O melhor guardado em mim seria só dele,
jamais meu marido recebeu desse amor.
Naquela tarde descobri que Cica morava,
nos fundos da casa do pai, era filho único, mas o pai desistira dos cuidados
com ele fazia algum tempo, o quarto era pequeno, mas a sensação era de que era
menos ainda devido à quantidade de livros e papeis que ali estavam apesar de
estarem todos bem organizados. Quando criança, sempre se destacara diante das
demais crianças de sua idade, era uma criança exemplar apesar de isolar-se dos
demais, não tinha amigos - contou-me seu pai naquela tarde, e em outras em que
estive ali para saber mais desse homem - Aos 15 anos sua mãe faleceu, a perda
da mãe deixou-o totalmente perdido no mundo. A mãe era o seu refúgio, o pai boêmio
jamais lhe dera atenção. A partir de então passou a perambular pelas ruas, sem
ponto fixo, tendo diversas vezes dado entrada no manicômio. Passado algum tempo
voltava para as ruas, Cica nunca fora violento, talvez fosse este traço da sua
personalidade que mais me chamava atenção, não era ameaça para a sociedade,
embora suas palavras fossem; contassem e denunciassem a opressão secular
sofrida pela população os demandes da política pernambucana, jamais sofrera
qualquer tipo de perseguição e os motivos são óbvios. Mesmo quando prestes
tentou chegar ao poder, não sofreu qualquer ameaça.Seus discursos exaltavam o
“Cavaleiro da Esperança”. Pregava a revolução proletária como a única saída.
Como já disse antes ele tornou-se para
mim uma obsessão, jamais entendi.Nesses trinta anos enriqueci os meus discursos
nos discursos dele, copiei fidedignamente suas propostas,senti-me muitas vezes
leviana, desleal. Mas consolava-me o fato de ter-me tornado uma interprete, de
um mundo ignorado.
Algumas vezes cheguei a desejá-lo. Sonhei
em trinta anos de convivência com noites cálidas em meio a revoluções, fazendo
parte da Coluna Prestes, em aguaceiros intensos, as roupas coladas à pele, o
calor do seu corpo no meu.Acordei muitas vezes em gritos mudos de prazer,
completamente ensopada de suor, sentada em seu colo, minhas pernas em volta das
suas costas, como num galope, prendida ao corpo de um cavalo.Por vezes senti-me
a pior das mulheres, fazendo o meu marido de substituto; naquelas horas Emanuel
sentia-se amado.Era um prazer desesperado, pela respiração incontrolável,
ofegante; pelo banho completo de língua que dava nele, o gozo não deixava
dúvidas, eu o amava. Cheguei a pensar em dupla personalidade, em loucura,
talvez de tanto admirar e seguir Cica, acabaria como ele. O silêncio de Cica
atormentava-me. Jamais conversamos, ele só monologava, ouvia-se sua voz grave
nos discursos na ponte.
Cica partiu após um discurso inflamado
pedindo apoio para as ligas camponesas.Morreu em abril de 1964, durante o golpe
militar. Eu me encontrava lá naquele fatídico dia,escutava-o, nunca perdi a
admiração por ele, amava-o cada vez mais , apesar de tratar-se de um amor
impossível, uma fantasia, amava. Foi terrível. Uma parte de mim ficou ali
naquela ponte, ainda hoje consigo escutá-lo quando passo por lá. Caiu, Cica
caiu, sua cabeça foi ao chão, um ataque cardíaco fulminante, que levaria de vez
todos os segredos que estavam incrustados naquele coração; e a sua cabeça ao
chão não conseguiu diluir toda inteligência e segredos ocultos que explicariam
os segredos de Cica. Ele se foi, tomei-o em meus braços. Levei-o para casa,
chorei...chorei. Providenciei um velório digno para ele, só eu estive presente
naquele dia, foi rápido, meu marido nem se quer desconfiou. No caixão uma coroa
de flores que mandei preparar com a inscrição: “ao maior orador da história de
Pernambuco”.
Um dia após a sua morte resolvi
abandonar a política, decidi passar um tempo coletando tudo que pudesse sobre o
pensamento de Cica. Pesquisei tudo que se encontrava em seus cadernos de
anotações: quarenta e três ao todo.De tanto vasculhar as sua coisas acabei
encontrando seu registro de nascimento. Chamava-se: Marivaldo dos Santos
Oliveira. O livro que escrevi apareceu como se escrito por ele, meu nome jamais
vazou.Cica ficou conhecido como o autor de uma única obra.
Esse foi meu pagamento por tudo que sou
e que tenho hoje aos quarenta e oito anos. O dinheiro arrecadado nas vendas dos
livros doei a uma instituição que cuida de pessoas com problemas mentais.
Cica é hoje uma lembrança que guardo com
muito carinho em meu peito.