quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

SINA DE UM RIO

Quando a terra seca bebe água
no sertão do Velho Chico
a terra se sente amada
entrega-se: O pleno cio.

A terra mulher mal amada
contendo-se em satisfazer
abre em submissão sua fendas
para água das nuvens receber.

Em sua pele raízes secas
que levam água a folhas que aparecem
em um abril de águas furtadas
de uma seca verde que cedo perece.

A Terra olhando de cima
o rio que insiste em correr
lembra que é sempre sua sina:
nascer e morrer.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

TRÊS MOMENTOS

Quero ser acariciado
pelos ventos da minha infância,
banhado pelos chuvas do mês de junho
enquanto sonhava com as férias escolares.
Quero sentir as mãos de minha mãe
mais um vez puxando meus cabelos
(naquele tempo eles eram volumosos)
trazendo-me de volta para casa:
era a hora do banho.


Quero mais uma vez ser queimado pelo sol
que brilha na praia de Boa Viagem
e mergulhar naquelas águas mornas,
sentir o corpo que me envolvia
enquanto dançávamos no embalo das ondas.


Quero de novo sentir que o frio polar
não é capaz de me atingir
porque os sonhos da juventude
são os melhores agasalhos contra o desânimo.



 

 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ELA , A LUA E EU

Andamos pela rua
pela praça de São Pedro
dançamos pra noite,
cantamos pra ela.

Ela a Lua e Eu.

Na segunda ela nascia...
na terça apareceu
na quarta ela cresceu
na quinta minguava
na sexta desapareceu...

Nos outros dias:
eu...eu...eu...

domingo, 27 de janeiro de 2013

CICA


 

      Não sei exatamente em que momento passei a amá-lo, até hoje não consigo entender por que o amo. A única coisa que sei é que não perco um só dos seus discursos. Durante trinta anos tive o final de tarde como sagrado.Fui seguida inúmeras vezes a mando do meu marido, com quem estou casada há trinta e um anos. Apesar de saber, nunca tocou no assunto comigo, talvez por que ele não se sinta ameaçado.Talvez porque não acredite na minha fixação.

        Um ano antes de conhecer o Emanuel, que hoje é meu marido, conheci na subida da Ponte Duarte Coelho o homem que com seus discursos mudaria minha vida e me tornaria uma ativa representante dos problemas políticos da minha cidade.Eu vinha descendo a Ponte Duarte Coelho no sentido Rua da Aurora quando vi de longe um homem em pé sobre os canteiros de plantas que separavam o rio da rua; ouvi primeiro sua voz que clamava a participação das massas, citando Marx e Engels, de vez enquanto citava Proudhon e Hegel. Nunca tinha visto um misto tão volumoso de saber e simplicidade. Apesar disso, era difícil alguém parar para escutá-lo. Era um sujeito magro, alto, de rosto afilado, cabelo curto, nariz cumprido. Vestia-se muito mal, uma camisa tergal, transparente de tanto que fora usada, a calça já estava coronha e uma bota rota completava seu traje.Era muito diferente dos que representavam o povo nas tribunas da cidade. Era singelo, o olhar manso, tranquilo ao fitar os olhos dos ouvintes ou a paisagem quando ninguém parava para escutá-lo.

      Cica, como era conhecido, era capaz de despertar paixão a primeira vista, foi exatamente o que aconteceu comigo. Logo depois de conhecê-lo pensei em abandonar tudo, deixar os estudos, não casar, entregar-me por inteira àquele homem a quem meu espírito estaria rendido durante toda vida.

      A princípio tentei aproximar-me dele numa tarde de dezembro, em quanto o sol deixava a cidade.Vestida de modo simples ajeitei os  meus cabelos, que naquela época ainda eram negros, lisos e sedosos sobre os ombros, que caiam sobre a minha pele branca que reluzia junto com os meus olhos no final de tarde. Apesar dos meus um metro e setenta me senti pequena diante da imensidão daquelas palavras avassaladoras. Pensei em seduzi-lo, mas não conseguiria, seus olhos eram puros, voltados apenas para as questões sociais, não me via como mulher, mas como parte da massa precisando de libertação das forças opressoras.

      Aplaudi veementemente o final do discurso, chegando-me apressadamente a ele.

      Após os discursos, ele prendia o caderno numa das axilas e saía. Naquele dia, ainda não sabia onde ele morava.

- Licença - Olhou-me com os olhos mais enigmáticos que já vi. - Como é seu nome? - perguntei-lhe, tentando fixar-me nos seus olhos - gostaria de elogiar o seu discurso, muito bom! – enquanto eu falava saiu numa tranqüilidade inquietante, como quem fica mudo em um passe de mágica.De fato nunca o ouvi falar em trinta anos.Os seus olhos diziam que me amavam, mas nunca consegui dizer-lhe que o amava.

Naquela tarde segui seus passos para conhecer um pouco mais daquela figura para quem guardaria todos os sentimentos escondidos em mim. O melhor guardado em mim seria só dele, jamais meu marido recebeu desse amor.

Naquela tarde descobri que Cica morava, nos fundos da casa do pai, era filho único, mas o pai desistira dos cuidados com ele fazia algum tempo, o quarto era pequeno, mas a sensação era de que era menos ainda devido à quantidade de livros e papeis que ali estavam apesar de estarem todos bem organizados. Quando criança, sempre se destacara diante das demais crianças de sua idade, era uma criança exemplar apesar de isolar-se dos demais, não tinha amigos - contou-me seu pai naquela tarde, e em outras em que estive ali para saber mais desse homem - Aos 15 anos sua mãe faleceu, a perda da mãe deixou-o totalmente perdido no mundo. A mãe era o seu refúgio, o pai boêmio jamais lhe dera atenção. A partir de então passou a perambular pelas ruas, sem ponto fixo, tendo diversas vezes dado entrada no manicômio. Passado algum tempo voltava para as ruas, Cica nunca fora violento, talvez fosse este traço da sua personalidade que mais me chamava atenção, não era ameaça para a sociedade, embora suas palavras fossem; contassem e denunciassem a opressão secular sofrida pela população os demandes da política pernambucana, jamais sofrera qualquer tipo de perseguição e os motivos são óbvios. Mesmo quando prestes tentou chegar ao poder, não sofreu qualquer ameaça.Seus discursos exaltavam o “Cavaleiro da Esperança”. Pregava a revolução proletária como a única saída.

Como já disse antes ele tornou-se para mim uma obsessão, jamais entendi.Nesses trinta anos enriqueci os meus discursos nos discursos dele, copiei fidedignamente suas propostas,senti-me muitas vezes leviana, desleal. Mas consolava-me o fato de ter-me tornado uma interprete, de um mundo ignorado.

Algumas vezes cheguei a desejá-lo. Sonhei em trinta anos de convivência com noites cálidas em meio a revoluções, fazendo parte da Coluna Prestes, em aguaceiros intensos, as roupas coladas à pele, o calor do seu corpo no meu.Acordei muitas vezes em gritos mudos de prazer, completamente ensopada de suor, sentada em seu colo, minhas pernas em volta das suas costas, como num galope, prendida ao corpo de um cavalo.Por vezes senti-me a pior das mulheres, fazendo o meu marido de substituto; naquelas horas Emanuel sentia-se amado.Era um prazer desesperado, pela respiração incontrolável, ofegante; pelo banho completo de língua que dava nele, o gozo não deixava dúvidas, eu o amava. Cheguei a pensar em dupla personalidade, em loucura, talvez de tanto admirar e seguir Cica, acabaria como ele. O silêncio de Cica atormentava-me. Jamais conversamos, ele só monologava, ouvia-se sua voz grave nos discursos na ponte.

 

 

Cica partiu após um discurso inflamado pedindo apoio para as ligas camponesas.Morreu em abril de 1964, durante o golpe militar. Eu me encontrava lá naquele fatídico dia,escutava-o, nunca perdi a admiração por ele, amava-o cada vez mais , apesar de tratar-se de um amor impossível, uma fantasia, amava. Foi terrível. Uma parte de mim ficou ali naquela ponte, ainda hoje consigo escutá-lo quando passo por lá. Caiu, Cica caiu, sua cabeça foi ao chão, um ataque cardíaco fulminante, que levaria de vez todos os segredos que estavam incrustados naquele coração; e a sua cabeça ao chão não conseguiu diluir toda inteligência e segredos ocultos que explicariam os segredos de Cica. Ele se foi, tomei-o em meus braços. Levei-o para casa, chorei...chorei. Providenciei um velório digno para ele, só eu estive presente naquele dia, foi rápido, meu marido nem se quer desconfiou. No caixão uma coroa de flores que mandei preparar com a inscrição: “ao maior orador da história de Pernambuco”.

Um dia após a sua morte resolvi abandonar a política, decidi passar um tempo coletando tudo que pudesse sobre o pensamento de Cica. Pesquisei tudo que se encontrava em seus cadernos de anotações: quarenta e três ao todo.De tanto vasculhar as sua coisas acabei encontrando seu registro de nascimento. Chamava-se: Marivaldo dos Santos Oliveira. O livro que escrevi apareceu como se escrito por ele, meu nome jamais vazou.Cica ficou conhecido como o autor de uma única obra.

Esse foi meu pagamento por tudo que sou e que tenho hoje aos quarenta e oito anos. O dinheiro arrecadado nas vendas dos livros doei a uma instituição que cuida de pessoas com problemas mentais.

Cica é hoje uma lembrança que guardo com muito carinho em meu peito.    

     

 

 

 

                                                                                            

 

 

 

 

sábado, 26 de janeiro de 2013

OCULTO

Quero tirar do meu peito

o que está escondido

deitado em berço não tão esplêndido

espremido pelas lembranças

de um passado não tão distante.

 

Quero que ele grite

e diga o que eu não penso dizer

fale o que é pra falar

diga o que eu não posso expressar

que o tempo não quis apagar.

ÍNDIOS


 

                         Índios infinitamente índios

                         Dono sem terras

                         Caçador sem caça

                         Pescador sem pesca

                        

                         Índios discriminadamente índios

                         Proibidos de lutar

                         Obrigados a aceitar

                         Prontos a abandonar

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

MANTOS VERDES

O horizonte em Itamaracá
desfile de jangadas coloridas
no mar que muda de cor
à medida que o sol expõe
seu manto de luz na água Morna.

Longe do horizonte, lavando
areias, o mar beija coqueiros
em manto branco - Signo eterno
dos tempos em que singravam os negreiros.

Os ventos alísios, no mar que tira
da pedra a canção, sacode
um manto verde-pálido
de bordados brancos, que absorvido
pela areia, canta enquanto explode.

Coberta por mantos estendidos
está a terra onde canta a pedra insistente
(O manto verde das matas, o manto
verde do mar) que continua recebendo
águas turvas vindas do continente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

CORTINA DE VIDRO

Uma cortina de vidro
jogada ao chão:
cacos agudos como
desejos ocultos
guardados, disfarçados.
Mentiras são contestadas,
as formas negadas,
os conflitos repartidos
em reflexos.
Espasmos voluntários
obstruindo o natural
que partem de impulsos
voláteis, perdidos,
enquanto descobrem-se
descortinam-se diante
da cor de olhos
imigrantes, insensíveis,
incapazes de ajuntar,
de calar.
Do vidro se fez o espelho
mostrando o inconcebível:
agora patente.

 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O SOL, A VARANDA E EU

Todo ano é assim:
o sol novamente descortina
a minha varanda.
Assim acontece todos os anos
o sol, a varanda e eu.

O sol parece mais novo, brilha mais.
A varanda  parece que não envelhece.
E só em mim ficaram as marcas deixadas pelo tempo.

À FLOR DA PELE


Castrei a minha alma
por causa de um amor
que me nega, me renega
a um segundo...terceiro...
décimo...distante plano.

Desisti de desvendar labirintos,
invejei com gana
o desejo de Teseu.
Que amor é o meu?
Inacessível como estrelas
anos, ano-luz distante.

Tão perto e tão longe:
perto da derme
longe do coração.

Tornei-me um gladiador
todos os dias
tentando desfazer suas defesas
quebrar suas armaduras.

Quando a balança
pesa pro meu lado
quebro a cara.

Aonde está o cupido
que não te envenena?

Stop, pare, no más.
Ame-me ou renegue-me
mas não diga: não sei.

*Este desabafo foi escrito há alguns anos atrás.
       
                                                                                                
 
 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

DISFARCE

À Ana Claudia Dias

A alegria tomou silêncio
a timidez vestiu-se de desinibição:
pequena caixa de segredos,
onde, oculta-se o medo.

Como na água do mar
a superfície transparente
oculta milhas e milhas
impenetráveis de solidão.

Segredos, lapsos de memória
fazendo aparecer
o disfarce do sorriso,
a palavra. Signos.

A menina torna-se mulher
em versos escondidos,
brancos como seus segredos,
livres como seus medos.
 

DESCONEXO

Sinto que as horas
não andam a passos lentos:
- São duas horas.
Os ponteiros do relógio apontam.
Mergulho velozmente em confusões mentais
repartidas, repelidas, novas.
O coração bate rapidamente
enquanto o resto do corpo enfadado pede trégua.
Frêmitos velozes atordoam-me por inteiro.
No relógio do meu corpo
os ponteiros mal saem do lugar.
Minutos sentidos em desconexo
ao mundo a minha volta.
As vezes escuto um bem um bem-te-vi ao longe:
percebo que meu relógio não segue
o movimento rotacional da Terra,
o outro preso ao meu pulso
marca: cinco horas.

Quarentena

Enquanto quantos dias enfrento e a vida segue cantando o encanto de que é preciso viver pra ver um dia melhor nascer. Meninos q...